A palestra sobre equilíbrio aconteceu pela manhã, com direito a um slide sobre descanso e desconexão. Às onze da noite do mesmo dia, o celular da equipe vibrou com uma cobrança sobre a planilha. Quem enviou não viu contradição alguma. Estava apenas adiantando o assunto para não esquecer.
Líderes costumam medir a própria coerência pelo que dizem em público. A equipe mede pelo horário das mensagens, pelo tom da resposta quando alguém erra, pelo que acontece com quem traz uma notícia ruim. São dois instrumentos diferentes, e só o segundo define a cultura de uma empresa.
Uma mensagem fora de hora raramente é abuso deliberado. Quase sempre é a ansiedade de quem lidera, transferida para quem não pode recusá-la. O líder alivia a própria mente e, sem perceber, ocupa a de outra pessoa. O custo aparece semanas depois, na forma de cansaço, de silêncio nas reuniões e de pedidos de demissão que ninguém entendeu.
Antes de enviar, pergunte a quem a mensagem serve.
Uma política de horários colada na parede ajuda pouco. A mudança acontece quando quem lidera aprende a sustentar o próprio desconforto até a manhã seguinte. É um exercício de maturidade antes de ser uma regra de gestão, e por isso costuma começar em uma conversa individual, longe da sala de reunião.
Vale um teste simples. Se a mensagem serve à sua tranquilidade, anote e espere. Se serve à segurança de alguém ou a um risco real, envie sem culpa. Na maioria das noites, a anotação basta.
Equilíbrio defendido de manhã e desmentido à noite ensina à equipe que o discurso é enfeite. Equilíbrio praticado em silêncio, sem slide, ensina o contrário e dispensa a palestra.
Valdimar Souza

