Em qualquer avenida, de qualquer cidade, o sinal ainda está vermelho quando a primeira buzina soa. Ninguém ali está atrasado por culpa do carro da frente, e todos sabem disso. Ainda assim a mão vai ao volante antes de o pensamento chegar, como se a pressa de um pudesse apressar a cidade inteira.
A cena é pequena, e por isso mesmo instrutiva. Muitos dos que buzinam passaram a véspera ensinando paciência a um filho, pedindo calma a uma equipe, recomendando serenidade a um amigo em crise. O conselho era sincero. A buzina também é.
Costumamos tratar a incoerência como defeito de caráter, coisa de gente falsa. A clínica e as empresas me mostram outra coisa. Quase sempre quem aconselha acredita no que diz. O que falta é a prática do que se acredita nos momentos em que ninguém está olhando e nada parece importante.
O sinal fechado não depende de mim. A buzina depende.
Os estoicos chamavam a atenção para o intervalo curto entre o que acontece e o que fazemos com o que acontece. É nesse espaço, que dura menos de um segundo, que o valor declarado se confirma ou se desmente.
Eu me incluo nessa conta, e é por reconhecer a cena em mim que a levo a sério nos outros. A pergunta que organiza o meu trabalho nasce daí. Você pratica o que aconselha? Ela dispensa a vergonha e pede resposta no trânsito, na reunião e na mesa do jantar, que são os lugares onde a resposta de fato aparece.
Amanhã o sinal vai fechar de novo. Nenhuma grande decisão é necessária. Basta notar a mão a caminho do volante e, por uma vez, deixá-la onde está.
Valdimar Souza

